Por Redação Click Alert
No dia 1º de julho, a Polícia Federal cumpriu nove mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo. Alvo: uma rede que produzia anúncios digitais fraudulentos usando indevidamente a identidade visual do Governo Federal e de órgãos públicos para simular legitimidade e aplicar golpes.
A investigação, batizada Operação Ad Phishing, já havia mapeado 1.770 anúncios ligados a dezenas de páginas e domínios diferentes — parte deles produzida com apoio de inteligência artificial para tornar as peças mais convincentes.
Os investigados podem responder por uso indevido de selo público, estelionato, associação criminosa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
Leia essa lista de novo. Não é uma multa de plataforma. É Código Penal.
O golpe deixou de ser artesanal
Enquanto a PF fechava o cerco sobre quem falsifica identidade de governo, a Serasa Experian publicava o resultado do próprio ano: 37.845 anúncios, perfis, páginas e aplicativos falsos identificados em 2025, imitando marcas e comunicações legítimas. Desses, 77% nasceram em redes sociais. 56% eram anúncios fraudulentos, 32% eram perfis falsos funcionando como vitrine para redirecionar a vítima. A mediana entre detecção e derrubada: quatro dias. Em alguns meses, a empresa identificou entre três mil e quatro mil ameaças novas — por mês.
O diretor de Autenticação e Prevenção à Fraude da Serasa foi direto sobre a causa: a IA generativa deu escala e aparência de legitimidade a anúncios, imagens e páginas falsas, ampliando a eficácia de golpes que antes exigiam mais trabalho manual para parecerem reais e acelerando demais o crime de ad phishing.
Duas fontes, dois recortes diferentes — uma investigação criminal, um relatório de mercado — chegando à mesma conclusão: o golpe publicitário não é mais um evento isolado de vez em quando. Virou operação continua, industrializada, e agora com inteligência artificial reduzindo o custo de produzir cada peça fraudulenta a quase zero.
Por que isso interessa a quem nunca foi hackeado
A reação natural de um gestor de mídia é pensar “isso é problema de segurança, não meu”. Errado, por dois motivos.
Primeiro: a matéria-prima desse crime é a sua marca. A tática identificada pela PF — usar elementos visuais de instituições confiáveis para dar legitimidade a página falsa — é exatamente a mesma lógica do brand hijacking comercial. A única diferença é o alvo: hoje é o Gov.br, o INSS, o SUS. Amanhã, ou já agora em paralelo, é o nome, o layout e a identidade visual da sua empresa sendo usados para vender produto falso, capturar dado de cartão ou redirecionar tráfego que deveria ser seu.
Segundo, e mais grave: mesmo quando a marca não é o alvo direto do golpe, ela pode ser o cenário dele. Anúncios fraudulentos aparecem no mesmo inventário programático, nas mesmas redes sociais, nos mesmos ambientes onde a marca também investe mídia. Quando a Polícia Federal ou a imprensa noticia uma operação como essa, o consumidor não separa “golpe de terceiro” de “publicidade digital em geral” — a desconfiança contamina o canal inteiro, inclusive quem nunca fez nada de errado.
O ponto de virada: isso saiu do campo técnico
Durante anos, sequestro de anúncio/ad phishing foi tratado como problema de performance: métrica distorcida, CPC inflado, verba desperdiçada. A resposta era técnica — auditoria de tráfego, monitoramento de afiliado, ajuste de campanha.
A Operação Ad Phishing marca um deslocamento. Quando a Polícia Federal expede mandado pela 10ª Vara Federal Criminal, o enquadramento muda de “ineficiência de mídia” para “crime digital organizado” — com estelionato, associação criminosa e lavagem de dinheiro na lista de tipificações possíveis. Esse mesmo padrão já apareceu em outro front: a Meta processou anunciantes no Brasil, China e Vietnã por deepfake e cloaking em anúncios fraudulentos, reconhecendo publicamente que seus próprios sistemas de revisão não bastam para conter o problema.
Isto é: nem a maior plataforma de mídia do mundo, nem a Polícia Federal, tratam mais isso como ruído operacional. É crime, é escala, e está crescendo junto com a adoção de IA generativa — pelos dois lados, o de quem ataca e o de quem só quer vender de forma legítima.
O que isso muda na prática para quem gerencia mídia
Não se trata de temer ser investigado — trata-se de reconhecer que a marca opera hoje num ambiente onde o padrão de fraude mudou de escala, de sofisticação e de enquadramento legal. Isso exige três mudanças de postura:
Monitorar não é mais opcional, é mitigação de risco reputacional.
Uma marca clonada, mesmo sem culpa, é notícia. E notícia sobre golpe com nome de marca é dano que nenhum orçamento de mídia paga compensa depois.
A cadência da fraude exige cadência de resposta.
Mediana de quatro dias entre detecção e derrubada, segundo a própria Serasa, só é possível com monitoramento contínuo — não com checagem esporádica.
A ausência de monitoramento também é dado, e dado ruim.
Se uma marca não sabe se seu nome, seu layout ou sua identidade visual estão sendo usados de forma fraudulenta agora e sofrendo ad phishing, ela não tem argumento de defesa quando o problema aparecer — só vai descobrir quando o estrago já tiver acontecido.
O crime organizado já entendeu que publicidade digital é superfície de ataque escalável. A pergunta que fica para quem lidera mídia é simples: sua marca está sendo monitorada com a mesma seriedade com que está sendo explorada?
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FAQ
O que é a Operação Ad Phishing?
Uma operação da Polícia Federal deflagrada em 1º de julho de 2026 para investigar uma rede que produzia anúncios digitais fraudulentos usando indevidamente a identidade visual do Governo Federal e de instituições públicas para dar aparência de legitimidade a páginas falsas. Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão em quatro estados.
Que crimes os investigados podem responder?
Uso indevido de selo ou sinal público verdadeiro, além de possíveis crimes de estelionato, associação criminosa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, conforme o grau de participação de cada um.
Esse tipo de golpe afeta só órgãos públicos ou também empresas privadas?
A técnica identificada pela PF — usar identidade visual de uma instituição confiável para enganar o consumidor — é a mesma usada contra marcas privadas em ad hijacking e phishing comercial. O alvo muda, mas o método é idêntico.
Qual a escala desse problema no Brasil?
Segundo a Serasa Experian, foram identificados 37.845 anúncios, perfis, páginas e aplicativos falsos em 2025, com 77% originados em redes sociais e mediana de quatro dias entre detecção e remoção, interrompendo ad phishing.
O que uma marca pode fazer para se proteger?
Monitoramento contínuo de uso indevido de marca, nome e identidade visual em anúncios, perfis e páginas — para detectar e reportar rapidamente, antes que o dano reputacional se espalhe.










